Liberal em contradição


idoso

A liberdade individual é inconciliável com a supremacia de um objectivo único ao qual a sociedade inteira tenha de ser subordinada de uma forma completa e permanente.

O caminho da servidão – Friedrich Hayek

É com esta frase que gostaria de falar acerca do liberalismo em Portugal.

Vivemos há 40 anos subordinados numa sociedade cujo objectivo é o do estabelecimento do estado como um agente quase supremo a nível económico e social.
Vivemos dominados por partidos de chefes e caudilhos, por um clientelismo gritante, uma subsidio dependência que nos prende na pobreza, um dualismo de esquerdas e direitas que mais parece um zombie saído dos inícios do século XX; é este pais em que a palavra liberdade foi aprisionada por bandeiras vermelhas e cânticos de revolução coca-cola.
(Antes disso a situação era ainda mais grave e nem merece comentários.)

E como reagem os liberais em Portugal?

Fora do ambiente de blogs, redes sociais e clubes, o panorama não é animador; prefiro até nem tocar num certo oportunismo que se demarca nalguns meios.

Mas por dentro não é muito melhor.

Os círculos liberais mais tradicionais em Portugal, aqueles mais apegados a uma forma estática e bem delineada do liberalismo, retraem-se e acometem todos os esforços para manter intacta uma estranha forma de pureza, chegam mesmo a tentar silenciar e vilipendiar qualquer forma não aceite na sua cartilha de regimentos liberais.
A segurança, uniformidade e ausência de risco parecem ser o mote.

Claro que estou a falar de maneira geral, de indivíduos mas não de todos os indivíduos, porque qualquer pessoa de bom senso vê vantagens em iniciar um caminho em prol do liberalismo e da liberdade, ao invés de criar fossos pueris e fátuos entre paredes ideológicas.

Mas é aqui que residem problemas e se levantam várias questões.

Será que o liberalismo em Portugal se tornou uma corrente da moda em alguns meios?
Uma espécie de adoração underdog, num país em que a imensidão do estado e a habituação geral e clubística com os partidos de sempre os torna de alguma forma “especiais”?

A estas questões soma-se a radicalização.

Entre sistemas fechados puramente no debate filosófico, de constante reforço de uma posição muito mais histórica do que actual até ao puro utopismo de algumas correntes, não se gera um debate real ou de divulgação, mas um constante reforço de opinião baseado numa critica entre paredes e pessoas liberais.

Deste diálogo cada vez mais extremado surge naturalmente uma espécie de concurso para ver quem tem ideias mais “livres”; os mais vocais são os primeiros a afirmar-se como os “verdadeiros liberais”, chegando mesmo ao ridículo de assistir a autênticos duelos entre Minarquistas e Anarco-capitalistas libertários; pinta-se até um quadro imaginário onde se vê um guerreiro filosófico que, chegado o fim do dia, pousa as armas e trata das feridas que usa com honra e distinção de verdadeiro defensor da liberdade…

Mas saído do imaginário vejo, mais vezes do que não, apenas o tradicional “trolling”.
Continuando e tentando por de lado a amargura da experiência.

Por um lado não acho que o libertarianismo seja uma corrente liberal, não porque me arrogue o direito de o etiquetar, mas porque se define claramente como uma ideologia com uma vida própria que se delimita como tal. Sem dúvida tem a sua matriz no liberalismo, mas nota-se a vontade e a determinação para serem algo que subsiste por si só e com uma vontade férrea de assim o ser.

Por outro a perspectiva clássica limita uma das maiores valias do liberalismo, a sua evolução.
O Liberalismo não parou no tempo, não incide em moldes fechados, numa selecção conveniente de pensamentos provindos de um pequeno grupo de pessoas determinantes para o seu desenvolvimento ao longo do tempo.
No entanto, em alguns meios, arrogam-se até o direito de sequestrar ou excluir quem se pode incluir neste grupo de pensadores, e mais vezes do que não ficam presos nas mesmas “paredes” e diálogos que critiquei.

Depois temos o Liberalismo moderno.
Este é acusado, e muitas vezes com razão, de se comprometer demais, de conceder demasiado e ser presa fácil do mote politicamente correcto.
Chega mesmo ao ponto de, no tom de insulto, ser apelidado de Social-democracia, de até ter feito “acordos com o diabo” (ver os LibDem e a aliança, entretanto já desfeita, com os conservadores no Reino unido, ou o acordo entre o Ciudadanos e o PSOE em Espanha).

Sendo a única corrente liberal que ainda possui capacidade de influenciar o mundo e a vida das pessoas, sofre também em igual medida a censura e critica das suas acções, sendo esta ainda mais violenta por parte daqueles que na segurança ideológica, em nada prática, se arrogam o direito de o poder fazer confortavelmente.

É por isto e por pensar que o debate de ideias é salutar e importante, acreditando que estes grupos e movimentos são importantes para o liberalismo (nem que seja para nos recordar de onde vimos e qual o nosso extremo), que cada vez mais duvido que exista da parte destes o desejo ou a vontade de contribuir para estimular o liberalismo em Portugal na pratica.

O caminho fica mais difícil.

Mas deixo reforçada a provocação regressando a Hayek:
– Será que estes movimentos, extremamente vocais, se regem pelas mesmas regras de um objectivo único para a sociedade inteira?

Será que desapareceu desta doutrina politica o pragmatismo, a democracia, a pluralidade ou o desejo de efectuar uma mudança? De resgatar a palavra liberdade dos partidos da extrema esquerda em Portugal?

Põe-se sequer como objectivo uma mudança real e factual, hoje, na vida das pessoas…?
Da vida do seu Pai, da sua Mãe, dos seus filhos…?
Será que não ficam incomodados com este Estado gordo que pouco faz pelas pessoas; que não se sentem oprimidos por uma partidocracia clientelista, esta que temos e que nos herda uma vida desgraçada enquanto nos tolhe o futuro?

Será que não têm o mínimo desejo de “sair á rua” e sendo realistas sonhar em poder mudar alguma coisa?!

Talvez o Liberalismo Português tenha sido sequestrado por “trolls” e um pequeno clube de pessoas, as mesmas que estão acomodadas na sua suposta diferença “especial” em ciclo de auto-reforço, esses emparedados entre livros e barreiras mentais e alheados da responsabilidade e das consequências.

Mas eu não acredito em “caras” ou clubes como solução para nada, acredito em valores; por isso espero que não, que não sejamos apenas alguns poucos a amar a liberdade e ansiar por um país mais livre; que ser liberal não seja um reduto cuja acção politica se resume a blogs, redes sociais e o encontros de circunstância.

Quero acreditar que há mais vida no liberalismo do que isto.
Que o Liberalismo existe para defender os indivíduos e a sua liberdade e não para se servir a si próprio.

Paulo Correia, associado do MLS – Movimento Liberal Social , 25 de Fevereiro de 2016