9 pontos e meio para criar um partido liberal. Lições do NEOS

neos-bts-1

O que podemos aprender com a experiência de um partido que apenas um ano após a sua fundação conseguiu 4,9% dos votos nas eleições legislativas e 9 deputados no Parlamento austríaco? O NEOS – Das Neue Osterreisch (A Nova Áustria) foi construído do zero a partir de um conjunto de valores, uma comunicação excelente e uma estrutura que apelava à participação das pessoas.

A convite de Jaime Pignatelli, o último Café Liberal do MLS teve a oportunidade de contar com Sebastien Arnold do NEOS, que embarcou na viagem do NEOS aos 17 anos. Quatro anos depois, veio a Lisboa falar-nos dos fatores de sucesso e lições aprendidas, donde discutimos a possibilidade de fazer acontecer algo de semelhante no contexto português.

A partir da conversa com Sebastien Arnold, e no mesmo número de pontos do programa político do NEOS – que são nove e meio – vamos descrever as principais lições acerca do sucesso deste movimento. Os primeiros nove pontos resumem os fatores chave para o sucesso do NEOS e o último meio ponto serve para perguntar se é possível transferir tudo isto para o contexto português.

Se no café discutimos cada um destes pontos, a ordem com que são apresentados e alguns dos argumentos inseridos são apenas meus.

1. Valores, valores, valores

Não terás sucesso por te dizeres “liberal”, mas pelos valores que transmites. Esta premissa funciona tanto na comunicação com os eleitores como no recrutamento de pessoas para o movimento. Um partido que se apresenta como liberal pode querer dizer muita coisa para as pessoas (incluindo coisas que os valores liberais não representam), ou pode ser oportunismo a ocupar uma área política virgem. O que as pessoas perceberão é se se revêm nos valores e se estes são de facto praticados nas mensagens políticas e no modo de funcionamento do partido. Por isso, na forma como comunica, o NEOS não se apresenta normalmente como “liberal”, mas como defendendo “valores liberais”.

2. Participação

Um partido que incentiva e recebe de braços abertos a participação de todas as pessoas que se revejam nos seus valores base irá estar não só a praticar os valores liberais, como a diferenciar-se dos outros partidos e a beneficiar do capital de pessoas e trabalho que essa participação trará. O “político” é a pessoa comum que participa na vida em comum e um partido deve ser uma plataforma para os cidadãos terem essa participação através da definição (ou não) de políticas públicas. O NEOS tem como valor e pilar fundamental a participação das pessoas na política e dá àqueles que se revejam nos valores liberais a plataforma onde o podem fazer. Se numa fase inicial esta abordagem se torna necessária em qualquer partido que queira crescer, o NEOS leva-a a sério e faz dela uma das suas grandes bandeiras. O Sebastien Arnold quis deixar claro que um factor crucial para si foi o partido o ter envolvido a sério desde o momento zero nas suas atividades. E o NEOS ganhou um membro que aos 20 anos se tornou coordenador para a comunicação na distrital de Viena.

3. Target #1: jovens

O exemplo do Sebastien é bom para caracterizar outro ponto importante que é a definição do target principal do NEOS: os jovens. Este é o alvo mais relevante porque os jovens estão particularmente abertos a ideias diferentes e porque são dos principais afetados pelas políticas do passado recente. Ao mesmo tempo é, para o recrutamento, um segmento particularmente importante porque são quem tem mais disponibilidade para trabalhar voluntariamente nas atividades do novo partido, a todos os níveis.

4. Comunicação de excelência – Fase 1 (Recrutamento)

A comunicação não pode ser menos do que excelente, desde o início. Tem que ser eficaz a transmitir os valores, a inspirar e a fazer acreditar que aquele projeto vai ter a capacidade de chegar longe. Quais são os canais preferenciais para o recrutamento? No caso do NEOS foi essencialmente o word of mouth (o Arnold soube do NEOS pela boca de um amigo de um amigo) cruzado com comunicação online (site) de excelência, com uma boa imagem, valores e objetivos claros, vídeos inspiradores pelos líderes do projeto e uma chamada à participação irrecusável.

5. Conteúdos programáticos sólidos vêm depois

Antes de existirem conteúdos programáticos sólidos, mais vale nem os mostrar, ou a falta de qualidade afastará pessoas. Na verdade, é o processo de recrutamento que deverá trazer pessoas válidas para elaborar esses conteúdos, e muito importante para o envolvimento e formação de algumas delas será precisamente a possibilidade de participarem na construção desses conteúdos. Portanto, não pôr o carro à frente dos bois: num partido que se quer participativo, primeiro vem o recrutamento baseado em valores, só depois os conteúdos. Um aspeto a garantir numa fase inicial é que existe uma base de pessoas de confiança que terão a capacidade de liderar grupos de discussão e trabalho em cada área programática, o que implica uma boa capacidade de liderança e gestão.

6. A busca do common ground

A discussão e elaboração de conteúdos entre pessoas com visões diferentes e sem uma relação prévia não é fácil. De novo, o facto de estarem todos de acordo com os valores expressos é um passo importante que facilita tanto mais este processo quanto mais específicos esses valores forem. Mas ainda assim há caminhos diferentes para tentar chegar aos mesmos fins e isto pode originar discussões difíceis. O passo seguinte é ter uma política interna de compromisso, baseada na busca dos pontos comuns (common ground), em que a generalidade dos participantes se revejam. Nalguns tópicos e em determinadas fases poderá mesmo ter que se abdicar de tomar posições claras sobre determinados assuntos, como foi o caso do NEOS numa fase inicial em relação à eutanásia, sobre o que só mais tarde foi possível chegar a um consenso suficiente para assumir uma posição clara. E porque estes processos de participação política tendem também a atrair alguns “malucos”, como lidou o NEOS com pessoas cujos valores, motivações ou comportamento não contribuiam positivamente para a construção do projeto? O afastamento nunca foi uma opção a não ser em casos muito específicos (tomada de posições públicas em nome do partido), mas lideranças que sabem evitar que os processos sejam conduzidos em função dessas pessoas é certamente um requisito para a capacidade de construção.

7. Sem financiamento inicial? Yes, we can

Num modelo participativo, baseado no voluntariado, a fase inicial dispensa grandes recursos financeiros. No processo de recrutamento passa-palavra e conteúdos web, os custos iniciais são essencialmente de produção desses conteúdos, o que desejavelmente se obtém através de aderentes iniciais ao movimento que sejam competentes nessa área. Numa fase inicial, não é o dinheiro que interessa, é a capacidade de inspirar pessoas e fazê-las trabalhar para um objetivo comum. Mais tarde, já com um programa político e comunicação, o dinheiro aparecerá, com base no crowdfunding e eventualmente algum “mecenas” político. Nas primeiras eleições do NEOS, o partido só foi significativamente financiado numa fase avançada, num esquema bastante criativo: um “mecenas” ofereceu-se para doar 1€ por cada 1€ obtido pelo NEOS em crowdfunding.

8. É essencial ter figuras públicas… Errado!

Claro que ter figuras públicas pode dar alguma visibilidade extra, mas também pode confundir as mensagens recebidas pelo potencial eleitor ou participante, cuja atenção deve ser focada nos valores e na abordagem participativa. Na verdade, a não aparição de figuras públicas até pode ajudar à criação da imagem de algo novo e distinto da mensagem expressa pelas caras do costume. Às eventuais figuras públicas deve ser reservado o papel de chamar a atenção e passar a mensagem, mas não sobrepôr-se a ela. Na sua primeira e bem sucedida campanha eleitoral, o NEOS não contou com a aparição de figuras públicas e deu-se muito bem com isso. Por outro lado, o facto de ter um líder desconhecido mas carismático e coerente parece ter feito uma diferença.

9 Comunicação de excelência – Fase 2 (Campanha)

Não vale a pena imaginar que se vai ter um partido criado do zero e não populista com um resultado significativo, sem uma campanha de comunicação que esteja à altura do resultado que se pretenda alcançar. Os eleitores irão avaliar um novo partido nos pormenores e não no todo, que ainda não conhecem. A coerência e o profissionalismo da campanha passarão a mensagem de que aquela candidatura tem essas mesmas características.

Claro que para um estratega de campanha tudo se torna mais fácil quando as suas mensagens partem de uma organização alicerçada, mais uma vez, em valores que a definem claramente e transmitem algo às pessoas. Para conseguir uma campanha coerente e clara, as mensagens a transmitir terão que ser muito poucas, simples e relacionar-se com os temas da agenda corrente. Essa estratégia tem que ter sido aprendida por todos os intervenientes na campanha, desde o líder do partido ao distribuidor de panfletos na rua. Enquanto soldado de campanha, por orientações dos responsáveis da comunicação, o Sebastien sabia que se alguma pessoa na rua lhe perguntasse algo, ele tinha que encontrar maneira de terminar a resposta com uma das três mensagens da campanha que tinham sido selecionadas.

Ainda um aspeto de comunicação interna: durante a campanha, é essencial colocar objetivos que mobilizem os participantes à ação. Enquanto o NEOS tinha 2% dos votos a poucas semanas das eleições de acordo com as sondagens, o objetivo para mobilização da campanha foi colocado nos 4%. Conseguiram 4,9%.

9 e meio. É possível fazer isto em Portugal?

Ou o contexto na Áustria e em Portugal é totalmente diferente? Olhando para os 9 pontos e meio do programa político do NEOS, dá a sensação que seriam perfeitamente transferíveis para Portugal. Ora veja-se:

Screen Shot 04-04-16 at 12.34 AM

Um partido que se apresentasse exatamente com estes pontos e transmitisse credibilidade podia aparentemente ir longe em Portugal. Segundo o Sebastien Arnold, a Áustria está muito longe de ter uma cultura liberal – o que não deixa de ser surpreendente para a terra de Hayek – e a estratégia funcionou porque estas posições são aceitáveis para qualquer pessoa de bom senso. Por outro lado, questionámo-nos sobre a existência de barreiras culturais maiores em Portugal, um país em que o cidadão médio ainda concorda que é ao Estado que cabe criar riqueza e resolver quase todos os problemas, e em que a participação cívica é das mais baixas da União Europeia. Mas estes são os mesmos portugueses imprevisíveis e por vezes capazes de coisas surpreendentes. Talvez estejamos a sonhar. Mas só há uma maneira de saber…

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *