Liberdade em reflexão

Forte de Peniche, Portugal

Em pleno 25 de abril, tive a oportunidade de visitar, com os meus pais, o Museu Municipal de Peniche, mais conhecido como a antiga Fortaleza do concelho. Naquele lugar, tive uma visão de que uma parte das grandes contestações voltadas ao regime do Estado Novo tinham origens bem assentes nos estabelecimentos prisionais políticos, bem como a perceção de um espírito de solidariedade que se consolidava, conforme o tempo da época até à aurora realizada da liberdade, entre os reclusos, as suas famílias e a população local.

Tive também a oportunidade única de apreciar as memórias deixadas pelo museu e pelos antigos presos políticos de Peniche sobre diversas coisas realizadas na Fortaleza: as torturas conduzidas pela PIDE, as condições de higiene, os rígidos horários, a falta de condições decentes de conversa no Parlatório (que servia como local de visita aos prisioneiros), a cela de Álvaro Cunhal, as fugas de prisão, a dureza dos guardas, e por aí fora.

Pensei que este momento que passei em Peniche, enquanto aproveitava o fim-de-semana prolongado fora da minha cidade-natal de Viseu, pudesse servir de rampa para uma curta reflexão sobre o estado da liberdade.

Em Portugal, penso que é do consenso geral que o 25 de abril mudou a forma como nós vivemos, pensamos, refletimos, expressamos e falamos sobre a política, a sociedade e o estado geral das coisas e da Nação no nosso país. No entanto, há outras formas que nos levam a pensar que estamos ainda a viver numa ditadura figurada, como os impostos, o desemprego, os boys e as empresas públicas cansadas de terem tanto prejuízo. Aliás, razões que já foram mais claras no artigo anterior, escrito por Rafaël Ferreira.

Atrevo a escrever que a verdadeira liberdade – aquela impulsionada pelas pessoas comuns e por um espírito liberto que intenciona ser muito além das restrições ou dos conformismos, e mesmo além de simples menções positivas como a liberdade de imprensa ou a realização de atos eleitorais – ainda permanece reclusa numa prisão política.

Nessa prisão existem copos meio-cheios de leite, estradas com percursos indefinidos e construções inacabadas, provocações de uma esquerda firme e reacionária a reclusos que dizem exatamente o contrário do que ela pensa, a vontade cega da esquerda em querer reverter tudo a seu favor, e o impulso de querer fazer muitas coisas além do senso correto, como foi o caso lamentável da proposta de mudança de nome do Cartão de Cidadão (uma ideia que parece ser tão vazia e vaga, em comparação a outros problemas de grande importância como a emigração, a eutanásia, os refugiados ou o sistema financeiro).

E ainda escrevo mais: a ilusão permanente de que as coisas vão correr bem para os nossos cantos poderá ter resultado numa desilusão raivosa de quem confiou nas pessoas para reverter os estados e num conformismo ressentido de quem foi eleito para ser confiado nas suas responsabilidades.

Fiéis às suas crenças políticas e às estruturas que sempre defenderam e conheceram em detalhe, estes eleitos ficaram escondidos entre a sombra e a penumbra, fazendo as coisas que sempre precisavam de fazer, enquanto não queriam estar disponíveis para debater a evolução do Estado Português nos últimos 42 anos, de uma maneira que pudesse passar além dos habituais confrontos teatrais e das sempre presentes ideias vermes de defesa ideológica e de experiência no poder.

Aliás, se todos os eleitores deste país pudessem ser “atropelados” e pensarem duas vezes sobre as opções que tomaram, acredito que eles possam ver, com os seus próprios olhos, as práticas que os seus eleitos tomaram em nome de Portugal. Inclusive aqueles que sempre admiraram, com ou sem direito à militância partidária.

Para concluir este texto curto, resta apenas deixar um apelo para findar esta comunicação: resta-nos deixar sonhar por dias mais felizes, onde as pessoas podem continuar a seguir as suas vidas, enquanto aproveitam uma liberdade mais solta do que agora.

E, já agora… tentar viver enquanto aguentamos o entretenimento político do momento.

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