A criadora da bolha

As aulas acabaram mas a polémica sobre os contratos de associação e os seus cortes ainda prossegue. As ideias do Governo continuam persistentes e com forte insistência, mas, por parte dos estabelecimentos particulares e cooperativos, ainda existem sinais de resistência e de luta. Por detrás da proposta, poderão estar coisas como o eleitoralismo, o populismo ou, simplesmente, velhos oblíquos de antiguidade pré-atual. Aparentemente, o tratamento de pelúcia para quem defende a escola pública – e nada mais do que apenas a supremacia da escola do Estado – parece ser mais preferível do que a discussão, a reflexão e a convergência de ideias.

Ainda assim, não acredito que o atual ministro da Educação seja o principal mecânico por detrás disto tudo. Aliás, como o povo costuma dizer, “por trás de um grande homem, há sempre uma grande mulher”. Essa mulher é a Secretária de Estado Adjunta e da Educação, a outrora obscura Alexandra Leitão, que abriu a caixa de Pandora e lançou uma bolha gigantesca, viva e ácida, que fosse capaz de esmagar a liberdade de escolha e de diferença, como se fosse um monstro canibal a comer todos os humanos e animais à sua frente. Tudo por causa de uma questão que é menos importante do que uma necessária reforma educativa.

Mas, mesmo com as explicações que consegue dar a todos os que queiram ouvi-la, Leitão parece não ter um pensamento político estruturado. Pelo contrário, parece-me uma formada em Direito sem passado mas que, por sorte, soube misturar a governabilidade político-partidária com a tecnocracia criativa, tendo lançado as sementes para a realização de um estudo científico que usou o Google Maps para justificar o ódio politizado da concorrência entre escolas públicas e privadas – um sinal evidente da enunciada “privaticária”.

E, sendo a criadora, Leitão lançou o jogo e criou as bases para uma guerra que veio a tornar-se de guerrilha, com inúmeras consequências: Portugal dividido, tomadas agressivas de posição em cada lado, revelações explosivas divulgadas pelos media, manifestações feitas como quem surgem cogumelos, opiniões extremistas à moda do anti-privado, legiões de pequenos revolucionários, e por aí fora…

Com tudo isto, esta secretária de Estado soube despertar emoções e lançar debates, apenas como forma de aproveitar a confusão para motivar o seu ministro a tomar friamente a ação e criar factos “inquestionáveis” que, por sua vez, ajudam a demostrar a ideia de que o Estado torna a liberdade num problema seu. Nesse sentido, é o Estado socialista-comunista-bloquista-verde que, com cismas motivadas de tanta falta de sentido contemporâneo, resolve fazer as coisas à sua maneira e virar ao avesso errado um sistema inteiro de educação. Seria natural que, para o satisfazer, Leitão tenha de lhe fazer a vontade e ser uma autêntica estratega, com técnicas, planos, relações, armas e bodes expiatórios.

Ao conceber uma decisão de grande peso como aquela mencionada no início deste artigo, Leitão assume o risco de ser a responsável pelo maior abismo de sempre na história do ensino português pós-25 de abril. Um abismo que poderia dar lugar para mais exemplos de como a atual maioria pode pensar no que quiser pela influência garantida, pelas massas conquistadas e pela fixação no poder (ou em outras coisas).

Com esta reflexão, continuo a manifestar a mais profunda preocupação pelo estado das coisas na educação e a renovar a minha esperança por uma reforma certa que, como mencionado no meu texto anterior, deve passar pela aposta num ensino livre, universal (e de escolhas).

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