Reflexão sobre uma história inédita

brexit

O que era outrora impensável acabou por acontecer. O Reino Unido terá de sair da União Europeia, numa ação nunca antes ocorrida no Velho Continente. Era uma coisa que se esperava que seria de pânico, mesmo em formas exageradas de interpretação. De facto, foi uma guerra suja, motivada pelos caprichos de velhos tempos e pela sensação de abismo, encontrada num buraco negro, voltado entre a incerteza e a ansiedade. E, sem dúvida alguma, a casa veio abaixo, com todas as partes escangalhadas.

Sempre pressenti que o referendo ao Brexit era, em primeiro lugar, uma ideia profundamente errada de quem a criou – isto é, David Cameron, numa altura em que a Europa estava numa situação bastante fragilizada e perturbadora – e, em segundo lugar, um perigo que era “too big to be ignored”, por causa das ameaças nacionalistas que persistiram ao longo da campanha, com enorme violência. Este segundo fator acabou mesmo por transformar-se numa realidade perversa espalhada por grande parte do território britânico, assim que os resultados foram divulgados.

Além disso, não deixa de ser curiosa a divisão geracional que marcou esses mesmos resultados, em que o confronto esteve claramente entre os mais novos e os mais velhos. Por um lado, os novos que sempre viveram com a Europa unida, o mundo universal – para não colocar apenas a palavra “globalizado” – e a convivência de diversas culturas e, por outro, os velhos que nasceram, cresceram e habituaram-se com os históricos ideais patrióticos da Grã-Bretanha, de tal modo que sempre viram a União Europeia como um carrasco mal-bem-vindo na vida do seu país.

Quanto à campanha, eu diria que nada ficou esclarecido e que nada foi refletido sobre grandes questões de futuro sobre a relação UE-Reino Unido. Em vez disso, tudo foi imigração, imigração, imigração… Nada foi pensado conscientemente sobre saúde, segurança ou, principalmente, economia. Ora, acontece que este último tema podia tornar-se muito mais relevante, não porque eu seja um economicista, mas porque seria uma componente importantíssima do que estava em jogo no referendo. Não foi possível…

Certo mesmo é que a ignorância e a supremacia nacional levaram mais além do que a responsabilidade e a razão. No entanto, seria absolutamente injusto achar que o Brexit signifique o início do fim da trajetória do projeto comunitário europeu. Pelo contrário, isto deve significar uma nova oportunidade dada à UE para mudar de cara, de modo a construir uma sociedade europeia mais integrada, dinâmica, esperançosa e próspera. Por isso, talvez seja preciso pensar. Para perceber o que mudou, compreender o que vem aí e pressionar o que tem de mudar. Se calhar, essa podia ser a receita secreta para o regresso da felicidade dos europeus…

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