Chamas e cinzas

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Estamos a passar agora por aquele mês do costume, em que acontecem as séries de incêndios que propagam por Portugal, que já detém mais de metade da área ardida este ano na União Europeia… E, como seria de esperar, as histórias são compreensivelmente de suor, sacrifício, desespero, frustração e de profunda desolação, cujos conteúdos já provocaram mais danos àqueles que foram acumulados ao longo da última década.

No entanto, é também nesta altura do ano que a opinião pública fica cheia de comentadores de bancada, de apologistas de oportunidade e de solidários de ocasião, que parecem ter respostas, ideias e apelos para tudo, e à maneira do que o povo gosta. Justiça popular, fundamentalismo, sensacionalismo, populismo, acusações demagógicas, soluções sem noção, tudo vale… Mas não é isso que vim aqui escrever. Aliás, quero simplesmente refletir esta questão em quatro pontos essenciais que acho que são importantes.

Em primeiro lugar, podemos dizer que, ao longo dos últimos tempos, Portugal nunca teve uma política consistente, a médio e longo-prazo, para a sua defesa e prevenção contra os incêndios florestais, e talvez por falta de arriscar e de vontade política. E não é preciso ser um grande sábio de conhecimentos elevadíssimos de academia para perceber quais são as consequências dessa falta de ação. No mínimo, tínhamos de apreciar imagens, textos e sons com grande estrondo e impacto para podermos perceber que, além das condições climatéricas e de meteorologia, há mais para justificar o porquê destes fogos acontecerem…

Em segundo lugar, também é claro que o nosso país não se mostrou capaz de investir fortemente na prevenção e no ordenamento do território como colocou tanto dinheiro no combate, de tal modo que, hoje, Portugal tem das melhores estruturas de socorro – com a Proteção Civil à cabeça e mesmo com algumas situações desordeiras de coordenação e de execução por parte dos comandos e dos bombeiros – e das piores estruturas de controlo florestal, incluindo limpeza e vigilância nas matas. De resto, o único investimento público de prevenção que vi foi em campanhas de informação (in)útil, como aquela com o slogan “Portugal sem fogos depende de todos”.

Em terceiro lugar, nós temos de considerar aquilo o que os políticos dizem. Já este ano, o Presidente da República, o Primeiro-Ministro e a Ministra da Administração Interna disseram umas barbaridades ingénuas sobre como resolver esta situação que nos afeta há muito tempo. Todos eles foram rápidos em sugerir propostas que acredito que, nem em dez anos, ainda consigam ser encaradas com a maior seriedade do mundo, quando, na verdade, são absurdas e irrealistas. Neste sentido, é impossível acreditar na inteligência que cada um assume em relação a este tema, quanto mais para António Costa, que ajudou mesmo a criar situações destrutivas, como a extinção dos serviços da Guarda Florestal da GNR, a implantação de um Plano Nacional de Defesa da Floresta que não avançou por pura preguiça e o esbanjamento de mais dinheiro do que o suficiente para os meios de combate, inclusive um investimento brutal em helicópteros Kamov, realizado por um tal de Rocha Andrade em 2006, que mereceu críticas da oposição e, passados oito anos depois, uma auditoria valente do Tribunal de Contas, que considerou que não foi visto em conta o “interesse público”.

Ainda sobre este ponto, penso também que é lamentável termos assistido a puras faltas de honestidade, montadas com vaidade q.b., por parte de responsáveis como o Ministro do Ambiente, que ainda louva por salutar a redução significativa da área ardida face a “anos anteriores”. Ora, sobre este pensamento, resta-me apenas refletir sobre a forma parola como Matos Fernandes pensa no curto-prazo – tendo ainda esquecido a possibilidade das florestas poderem ter ardido menos, por causa de haver… menos floresta – e a maneira maníaca de como ele adora falar com os jornalistas, sobre qualquer assunto e com ares de convencido pretensioso.

Em última alínea, basta também observar a suavização das declarações dos partidos do arco governativo, especialmente do BE, em comparação com o ano passado, para vermos que, afinal, até a extrema-esquerda tem duplo critério de opinião sobre o estado das coisas. Em 2015, Pedro Filipe Soares criticou violentamente o governo anterior por incompetência no combate, tendo ainda acrescentado o seguinte, entre outras afirmações: “Sabemos que as condições meteorológicas constituem uma variável importante no número de ocorrências de fogos florestais, mas não é legítimo responsabilizar apenas as condições meteorológicas como o Governo está a tentar fazer“. Em 2016, declarações como aquela não foram mediatizadas e nem sequer apresentadas pelos próprios partidos, limitando-se apenas às preocupações com coisas irrelevantes, como a exigência do desvio do dinheiro usado no apoio à banca para a prevenção dos incêndios, defendida pelo PCP.

Finalmente, em quarto lugar, acredito que temos de pensar e refletir sobre o estado da questão florestal em Portugal, nomeadamente quando essa mesma questão está posta em causa, por causa de problemas como os incêndios. Seria mais fácil se alguém pudesse arranjar uma solução eficaz e racional, mas não… Em vez disso, ainda continuam a existir arruadas lamechas no meio das terras queimadas, festas de boxe no meio das mesas de debate, investimentos em estratégias sistematicamente falhadas e reuniões irrelevantes para, depois, os jornalistas levarem declarações desnecessárias, como aquela proferida pelo presidente da Liga dos Bombeiros, que atreveu a comparar fogo posto com terrorismo. Duas coisas completamente diferentes, para variar…

É claro que é necessário haver políticas coerentes, reformistas e independentes, aquelas que visam uma melhor sustentabilidade e responsabilidade durante todo o ano, e não apenas nas alturas mais críticas. Mas é também claro que resolver simplesmente este estado não é fácil e nem merece sequer ser um exercício de somar e subtrair. Daí que é preciso existir mecanismos rigorosos de gestão e de prevenção, duas palavras que parecem ter faltado em peso nas recentes políticas nacionais de floresta (e que parecem que vão continuar a faltar, já que o Governo quer apostar ainda mais no combate, já tão excessivamente obeso de recursos, ao querer colocar a Força Aérea ao serviço), e já para não mencionar que é urgentemente indispensável uma melhor cooperação integrada com a Europa, que, ao longo dos anos, tanto fez para ajudar a combater os fogos ao lado das forças nacionais e que o Governo começa agora a desprezar.

Os problemas são complexos e os desafios são exigentes. Certamente, os incêndios vão continuar a existir enquanto houver terrenos suscetíveis a uma ignição que cause fogos potencialmente descontrolados, condições atmosféricas perigosas que possam propiciar estragos ainda maiores e grupos de pessoas que, por razões diversas, transformam-se em masoquistas e lançam tragédias por todo o lado. Resta apenas ao poder político que deixe de ser piegas e passe a ser meticulado, porque precisa e necessita de mudar a cara da floresta portuguesa, melhorá-la e ligá-la mais à Europa comunitária.

E, já agora, peço desculpa se fui agressivo demais com as minhas palavras…

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