Não houve estrelas no céu

766180

Sabemos claramente que o mundo dá voltas, que ele está a ficar bastante complexo e que basta o brilho de uma pistola direcionada para o lado errado para que tudo fica cada vez mais problemático. Ora, quando se pode falar sobre questões políticas portuguesas do momento a nível orçamental e económico, nada pode comprovar melhor esta afirmação do que o facto – nem sempre assumido de uma forma direta e frequente – de que o Governo de esquerda errou nas previsões exatas em relação ao crescimento segundo o Produto Interno Bruto, ao défice, ao investimento e ao consumo privado. De tal forma, que viu-se obrigado a mudar de estratégia pretendida para uma aposta – ironicamente avançada pelo executivo anterior de direita – na economia privada, através das exportações e do investimento. Juntamente com a continuidade do ajustamento funcional da Administração Pública, que o PS quis jurar que era contra e que, agora, vê o Ministério das Finanças querer fazer exatamente o contrário. Será mesmo realismo? É provável…

Mas, mesmo assim, há-que pesar tudo isto com os seus prós e contras, sobretudo quando somos confrontados com coisas como as maníacas taxas sobre o património imobiliário e o alojamento local, o ridículo “fat tax”, os aumentos nos impostos sobre os carros, o álcool e o tabaco, a taxa caricata sobre os cartuchos de caça, a mentirola balelas do fim da sobretaxa do IRS e a continuação de certos impostos do governo anterior, ainda hoje alvos de autêntica piada, como as contribuições extraordinárias sobre os setores energético e bancário.

Tudo isto, que já chegou ao duplo critério de intenção (e que o Governo quer agora corrigir depois das revelações incríveis dos media, no caso enunciado pelo link anterior) e que é visto como uma forma de compensar o despesismo arriscado e arbitrário da reposição de salários, subsídios e pensões, que, por sua vez, destinam-se quase sempre à gente da Função Pública, apesar do enunciado ajustamento funcional. (E, mesmo assim e não se sabendo exatamente o porquê, esta reposição também tem o seu próprio duplo critério…)

De facto, podemos ter todo o direito de dizer que o OE 2017 é um documento mais moderado e suave, mas só na linguagem e no marketing utilizados pelo Governo. Mas nada nos pode impedir de afirmar que este mesmo OE 2017 continua a promover o enriquecimento maximizado e à solta do Estado, de modo a que ele possa avançar ainda mais com os seus projetos, ambições e fantasias de vaidade, como os seus governantes sempre gostaram de fazer ao longo dos anos.

Além disso, é possível notar os riscos e o contexto que este orçamento comporta, já que, para além das pressões internas, também é suscetível à política europeia – que, geralmente, nunca brincou em serviço – e às mudanças políticas e económicas que podemos assistir a nível global nos próximos tempos. Exatamente por isso mesmo, é de recordar o Brexit, a evolução da economia mundial e das economias dos principais países parceiros de Portugal, as eleições norte-americanas – que já decorrem no próximo mês de novembro –, e as eleições que irão certamente decorrer em 2017 na Alemanha, na França e na Holanda – e já para não falar das possibilidades de novos atos na Itália e em Espanha. E, “last but not least”, o futuro da relação entre Portugal, Alemanha e o Banco Central Europeu (que o país de Merkel ainda continua a apoiar), que poderá ficar afetada por políticas de menor sensibilidade aos países com dificuldades, um possível deslize sangrento dos mercados financeiros e/ou por uma eventual decadência, limitação, suspensão ou fim do programa de liquidez do BCE. Nunca podemos prever tudo com facilidade mas os riscos e as incertezas são tão grandes e diversas, que não vale a pena ignorá-las.

De resto, não vou dizer mais nada. Vamos ver o que irá acontecer…

P.S.: Caso queiram lembrar-se de um número que marca este OE, aqui vai a minha sugestão: 775%.

P.S. II: E a confusão já era tanta, que o próprio Governo decidiu juntar-se a ela.

,

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *